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Em vídeo, humorista Murilo Couto faz piada com atropelamento de ciclistas e é criticado

Humorista, que tem 2,6 milhões de seguidores somente no Instagram, também criticou o uso das ruas por ciclistas, ironizando a baixa velocidade de quem pedala com a dos automóveis

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 12/07/2021 às 13:29
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"No caso de ciclista eu dou razão ao motorista de ônibus que atropela", diz o humorista em show filmado por alguém da plateia - FOTO: REPRODUÇÃO
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Um vídeo do humorista paraense Murilo Couto ironizando ciclistas, questionando o uso das ruas por eles e defendendo que motoristas de ônibus os atropelem está provocando críticas da sociedade. O vídeo, supostamente gravado por alguém da plateia em um dos shows de stand up comedy, viralizou nas redes sociais neste fim de semana (10 e 11/7). A reação às piadas foi tanta que a atitude do humorista está sendo interpretada como incitação ao crime, prevista no Artigo 286 do Código Penal Brasileiro.

Pelas imagens, ao saber que um espectador é ciclista, Murilo Couto faz piadas a respeito das roupas coladas e posições na bicicleta. A ironia já demonstra preconceito. Mas depois se agrava quando o humorista diz entender quando motoristas de ônibus atropelam os ciclistas. “No caso de ciclista eu dou razão ao motorista de ônibus que atropela”, diz.

Em outra parte do vídeo, Murilo Couto também contesta o uso das ruas por ciclistas, ironizando a baixa velocidade de quem pedala com a dos automóveis. Diz que ciclistas estão a 20 km/h, enquanto os carros estão a 80 km/h. O vídeo viralizou nas redes socias no domingo (11) pela manhã, mas foi retirado do youtube do humorista. A Coluna Mobilidade tentou contato com o humorista, mas não conseguiu retorno. E, por enquanto, nenhum posicionamento foi feito nas redes sociais.

Confira o vídeo


REAÇÃO

A ironia do humorista gerou revolta no setor de bicicletas. Foi entendida pelos ciclistas e cicloativistas como um estímulo à violência no trânsito num País que mata mais de 30 mil pessoas e mutila outras 500 mil todos os anos. Já matou 46 mil por ano, vale ressaltar. Também acusam o humorista de incentivar a impunidade, um problema frequente nos casos de crimes de trânsito.

A Aliança Bike, associação que atua para estimular a produção e o uso da bicicleta no País, se posicionou criticamente contra o gesto do humorista. Lembrou que há anos o Brasil vive uma epidemia de mortes no trânsito, com 50 mil vidas perdidas anualmente (dados estimados devido à subnotificação, mas não confirmados pelo SUS). E que, somente nos últimos dez anos, quase 14 mil ciclistas foram atropelados por motoristas de ônibus, automóveis e caminhões nas estradas, ruas e avenidas de todo o Brasil.

“Mesmo assim, ainda tem quem ache engraçada a tragédia brasileira. Circula nos últimos dias um vídeo em que o humorista Murilo Couto faz piada com as mortes de ciclistas no trânsito. Ele chega até mesmo a incentivar atitudes assassinas por parte de alguns motoristas. Não nos cabe dizer quais são os limites do humor, mas sim alertar que, quando se trata da vida e da sobrevivência de pessoas, o efeito imediato das falas do Sr. Murilo Couto é a banalização das mortes. Sim, uma piada pode promover mais mortes e a atitude do humorista pode ser interpretada como incitação ao crime (art. 286 do Código Penal) e discurso de ódio, travestidos de humor”, afirma.]

A União dos Ciclistas do Brasil também se posicionou criticamente ao humorista. Confira:

Atropelar ciclistas é crime: nota de repúdio ao humorista Murilo Couto

E ainda pondera a responsabilidade social de Murilo Couto, que conta com mais de 2,6 milhões de seguidores apenas no Instagram”Por isso, Murilo Couto tem a responsabilidade de influenciar o comportamento de muita gente. Uma retratação seria muito bem vinda”, defende a Aliança Bike.

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"No caso de ciclista eu dou razão ao motorista de ônibus que atropela", diz o humorista em show filmado por alguém da plateia - REPRODUÇÃO


Confira a nota na íntegra:

“Assistimos consternados a um trecho do stand up de comédia do humorista Murilo Couto em que este zomba e, pior, concorda com atropelamentos e mortes de ciclistas no Brasil.
Nos últimos 10 anos, quase 14 mil ciclistas tiveram suas vidas ceifadas por motoristas de ônibus, automóveis e caminhões nas estradas, ruas e avenidas de todo o Brasil. Mortos no trânsito, em geral, somam em média mais de 50 mil pessoas por ano. É uma tragédia humanitária.

As falas do humorista atravessam como um afiado punhal os corações de milhares de famílias em luto e em busca de justiça por crimes de trânsito que ainda são negligenciados no País.

Não nos cabe dizer quais são os limites do humor, mas sim alertar que, quando se trata da vida e da sobrevivência de pessoas, o efeito imediato das falas do Sr. Murilo Couto é a banalização das mortes. Sim, uma piada pode promover mais mortes e a atitude do humorista pode ser interpretada como incitação ao crime (art. 286 do Código Penal) e discurso de ódio, travestidos de “humor”.

Como disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, enfrentar o discurso de ódio não significa limitar ou proibir a liberdade de expressão. Significa evitar que este discurso se transforme em algo mais perigoso, particularmente que incite discriminação, hostilidade e violência, o que é proibido pela legislação internacional.

Portanto, repudiamos com veemência as falas do Sr. Murilo Couto. As risadas de uma platéia em uma sala de teatro não podem justificar a morte de milhares de ciclistas e o luto de seus familiares e amigos. Basta de mortes no trânsito e de discursos de ódio”.

 

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A denúncia foi feita pelo defensor público Alessandro Tertuliano, que apresentou a queixa como cidadão e praticante de ciclismo - FOTO:REPRODUÇÃO

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