Facção, alvo de operação em PE, estaria usando gravadora musical para lavagem de dinheiro

Dono da gravadora e um cantor de funk estão entre as pessoas investigadas pela polícia
Raphael Guerra
Publicado em 29/06/2023 às 8:52
Dinheiro, celulares e drogas foram apreendidos durante operação da polícia Foto: PCPE/DIVULGAÇÃO


A facção Trem Bala, que foi alvo de operação da polícia nessa quarta-feira (28), estaria usando uma gravadora musical para o lavagem de dinheiro adquirido com o tráfico de drogas. O dono da empresa e um cantor de funk estão sendo investigados por colaboração ao grupo criminoso, que é bastante violento e tem forte atuação no Litoral Sul de Pernambuco. 

Segundo relatório da Polícia Civil, a gravadora musical investigada tem contratos firmados com vários artistas locais. Um deles seria gerente de uma boca de fumo localizada no distrito de Camela, em Ipojuca, no Grande Recife. 

Numa recente operação realizada por policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) para combater o tráfico de drogas na área rural de Nossa Senhora do Ó, também em Ipojuca, membros da Trem Bala foram localizados em uma casa onde acontecia uma festa de aniversário. O cantor de funk investigado estava lá, o que, para a polícia, é um claro sinal da íntima ligação dele com a facção. O MC conseguiu fugir.

"Foram analisadas as músicas cantadas, produzidas e divulgadas pelo MC, restando verificadas claras incitações ao crime e apologias à facção criminosa Trem Bala", pontuou relatório da Polícia Civil. 

Na Manguezal Vermelho, que cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, não foram solicitadas medidas cautelares contra o dono da gravadora e contra o cantor de funk, mas ambos seguem sob investigação. Por isso os nomes deles não serão revelados. 

Outro detalhe descoberto pela Polícia Civil é que apenas os cantores liberados pela facção podem se apresentar em determinadas áreas das praias de Porto de Galinhas, Maracaípe e Serrambi. Os músicos precisam de autorização antecipada do grupo. 

Em 26 de dezembro de 2021, o cantor Paulo Roberto Gonçalves Cavalcanti, conhecido como MC Boco do Borel, foi assassinado, durante um show, em um bar de Serrambi. Segundo as investigações, o crime teria relação com disputa entre facções. O cantor teria sido morto porque o grupo que atua na área desconfiava que o MC era integrante de uma organização criminosa rival. 

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM - Paulo Roberto Gonçalves Cavalcanti, o MC Boco do Borel, foi assassinado em 26 de dezembro de 2021

Boco do Borel chegou a ser preso, em 2020, após ser flagrado na posse de mais de meio quilo de pasta base de cocaína. Permaneceu dois meses no presídio e, lá, teria supostamente construído uma relação com a facção rival. 

COMO ATUA A FACÇÃO TREM BALA?

A investigação apontou que a Trem Bala é especializada no tráfico de drogas, comércio ilegal de armas de fogo, tortura e lavagem de dinheiro. O grupo tem ligação com facções do Sudeste, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e, principalmente, o Comando Vermelho. 

Para a polícia, o grupo é bem organizado, com estrutura hierárquica e divisão de tarefas entre os membros: há "olheiros", vendedores de drogas, gerentes do tráfico, homicidas, "laranjas" que emprestam contas bancárias para a lavagem de dinheiro, chefias e líderes da organização. 

A facção tem forte atuação nos municípios de Ipojuca (principalmente a praia de Porto de Galinhas), Cabo de Santo Agostinho, Sirinhaém, Itamaracá, Escada, Jaboatão dos Guararapes, entre outros. 

Ao longo das investigações, foram apreendidos cerca 200 cadernos, onde constavam parte da contabilidade do tráfico de drogas. A polícia acredita que, entre o ano de 2021 e início de 2022, a facção arrecadou quase R$ 10 milhões. Além disso, o grupo gastou, no mesmo período, quase R$ 300 mil na aquisição de armas de fogo e R$ 114 mil com munições coletes a prova de bala. 

O nome da Operação Manguezal Vermelho faz referência à planta mangue vermelho, vegetação típica de mangues que, quando tem sua casca raspada, apresenta uma coloração avermelhada. É uma alusão à existência de cemitérios clandestinos nas áreas de mangue nos distritos de Porto de Galinhas e Nossa Senhora do Ó, também em Ipojuca.

As investigações apontaram que vítimas do grupo violento eram torturadas, mortas e enterradas nesses locais. "Os alvos muitas vezes eram traficantes rivais, usuários de drogas em dívidas com a facção e pessoas que praticavam crimes patrimoniais na região", afirmou o delegado Ney Luiz Rodrigues, responsável pelo inquérito.

Pessoas apontadas como informantes da polícia também eram mortas após serem "julgadas e condenadas" por uma espécie de tribunal do crime.

Dos 24 mandados de prisão, 14 foram cumpridos em presídios do Estado. "É um dos principais problemas da segurança pública essa facilidade que os presos têm de continuar mantendo contato com o mundo externo e gerenciar essas facções criminosas."

Além das 24 prisões efetuadas, nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos. Celulares, drogas e dinheiro estão entre as apreensões. 

LÍDERES DA FACÇÃO ESTÃO PRESOS

No último dia 16 de junho, o atual líder da Trem Bala foi preso. Pedro Paulo de Jesus Teixeira, conhecido como Carioca, estava morando na chamada Zona de Expansão de Aracaju, uma espécie de região metropolitana recém construída, onde estaria investindo em imóveis.

"A maior dificuldade nossa era produzir provas contra ele, porque ele não agia diretamente. Usava outras pessoas, principalmente adolescentes, para praticar os crimes. Mas, ao longo da investigação, conseguimos essas provas e ele foi preso", disse Ney Rodrigues. 

CORTESIA - Pedro Paulo de Jesus Teixeira estava escondido em uma casa em Aracaju. Ele estava sendo procurado desde o ano passado

Evanilson José da Silva, conhecido por "Bambam", o líder anterior ao Carioca, também já está preso.

Ambos, segundo a polícia, tem forte ligação com o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, que seria a principal fornecedora de drogas. A descoberta foi feita porque integrantes da Trem Bala usavam, nas redes sociais, usam expressões como "Tudo dois", que pertencem à simbologia alusiva à facção carioca. 

Durante as investigações da Polícia Civil, nos últimos anos, constatou-se que o grupo Trem Bala também tem ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que seria uma fornecedora de drogas.

Fotos de comprovantes bancários encontradas em celular periciado demonstram transações financeiras com indivíduos integrantes da facção paulista. 

FACÇÃO QUER INSERIR INTEGRANTES NA POLÍTICA

Para avançar ainda mais, o grupo já estaria financiando pessoas para serem candidatas a cargos políticos.

"Tem um funcionário da prefeitura (de Ipojuca) que era uma espécie de líder comunitário e que, segundo as investigações, iria se candidatar nas próximas eleições como vereador. Ele era envolvido com o tráfico de drogas e foi preso na última quinta-feira", afirmou o delegado.

O suspeito já se apresentava nas redes sociais como candidato a vereador.

A assessoria da Prefeitura de Ipojuca informou que o servidor investigado foi exonerado do cargo após a prisão.

COMPRA DE ARMAS DE FOGO DA POLÍCIA CIVIL

A Trem Bala, inclusive, é apontada como uma das facções que compraram armas de fogo subtraídas da sede da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), no Recife. O esquema, que envolveu policiais civis, foi descoberto em 2021.

No total, 1.131 armas (entre metralhadoras, pistolas e revólveres) e milhares de munições foram desviadas e vendidas por valores médios entre R$ 6,3 mil a 6,5 mil. Já as submetralhadoras custavam R$ 22 mil no comércio ilegal. O processo segue em tramitação na Justiça, ainda sem condenações. 

FACÇÃO COMANDA ROTINA DE COMUNIDADE EM PORTO DE GALINHAS, APONTA INVESTIGAÇÃO

A investigação revelou que a comunidade de Salinas, em Porto de Galinhas, é comandada por integrantes da Trem Bala. O acesso de pessoas à localidade só é permitido com autorização dos criminosos, que portam armas de grosso calibre pelas ruas em plena luz do dia.

Eles se comunicam por meio de rádios e monitoram os lugares por meio de câmeras de segurança.

Até mesmo o acesso para realização de serviços públicos essenciais, como a coleta de lixo, reparos e instalação de iluminação pública e entrega de encomendas, só podem ser feitos com a permissão do chefe da boca de fumo. 

PROTESTOS APÓS MORTE DE MENINA FORAM ORGANIZADOS PELA TREM BALA

ALEX OLIVEIRA/JC IMAGEM - REVOLTA Moradores de Porto de Galinhas protestaram contra ação da Polícia Militar na comunidade

As investigações também revelaram que os protestos de moradores da comunidade de Salinas após a morte da menina Heloysa Gabrielle, de 6 anos, em março de 2022, foram orquestrados por integrantes da Trem Bala.

Nos protestos, que resultaram em dias tensos no cartão-postal pernambucano, moradores pediam a retirada dos policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da região, sob a acusação de que seriam violentos. 

"Esses traficantes falavam em atacar a delegacia e falavam até em atirar um helicóptero da polícia", contou o delegado Ney Luiz Rodrigues. 

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