PERDAS COM A COVID-19

Cerca de 40% dos trabalhadores da hotelaria de Porto de Galinhas, no Litoral Sul, já foram demitidos por causa do coronavírus

Informação é do presidente do Porto de Galinhas Convention & Visitors Bureau, Eduardo Tiburtius

Mona Lisa Dourado
Mona Lisa Dourado
Publicado em 22/04/2020 às 16:50
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TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
Praias de Ipojuca estão interditadas desde 22 de março de 2020 como medida para conter contaminação pelo coronavírus - FOTO: TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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POR MONA LISA DOURADO, DA COLUNA TURISMO DE VALOR

Cerca de 40% dos trabalhadores da hotelaria de Porto de Galinhas já foram demitidos por causa das medidas restritivas de combate ao novo coronavírus. A informação é do presidente do Convention & Visitors Bureau (PGC&VB) do destino, Eduardo Tiburtius, que não revelou o número absoluto de funcionários desligados.

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O executivo se baseia em pesquisa encomendada pelo trade de Pernambuco ao Departamento de Hotelaria e Turismo (dHT) da UFPE, cuja versão preliminar também aponta que no Estado a média de demissões é de 33,5% de trabalhadores do turismo em geral entre as empresas que declararam a necessidade de desligar colaboradores. 

O Monitoramento sobre o Impacto do covid-19 na atividade do turismo em Pernambuco estava programado para ser publicado no início da manhã de hoje (22), mas decisão em contrário de alguns dos empresários do setor adiou a divulgação dos demais detalhes para agosto, segundo a assessoria de imprensa do PGC&VB. Ainda conforme a assessoria, o estudo será repetido entre abril maio e no mês seguinte, caso as medidas restritivas de isolamento social prossigam.    

TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
O novo coronavírus provocou o fechamento do comércio em todo o Estado - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM

Entre os trabalhadores que permanecem com vínculo empregatício, parte foi colocada em férias coletivas e outra em home office, de acordo com uma das coordenadoras da pesquisa, a professora Carla Borba. Outros, diz ela, puderam ser mantidos graças a mecanismos como as Medidas Provisórias (MP) 927 e 936, que permitem a redução ou suspensão de jornada de trabalho e salários por até dois meses, com contrapartida do governo federal, desde que seja garantida a estabilidade dos funcionários no emprego por igual período posterior à aplicação das medidas.

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FELIPE RIBEIRO/JCIMAGEM
Praia de Boa Viagem concentra a maioria dos hotéis do Recife - FELIPE RIBEIRO/JCIMAGEM

A primeira edição do levantamento foi realizada entre 30 de março e 15 de abril de 2020, com maioria dos  participantes de Ipojuca e da capital pernambucana. Aproximadamente um terço estão distribuídos entre outros destinos turísticos da Região Metropolitana do Recife (RMR), como Olinda e Jaboatão dos Guararapes, e do interior, a exemplo de Petrolina (Sertão), Gravatá e Caruaru, ambas no Agreste. 

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De acordo com Carla Borba, o questionário foi encaminhado via link online pelas entidades de classe que encomendaram a análise, caso da ABIH (hotéis), Abrasel (restaurantes), Abav (agências de viagem) e Abeoc (eventos), além do Recife Convention & Visitors Bureau (RC&VB) e do Porto de Galinhas Convention & Visitors Bureau (PGC&VB). 

LEO MOTTA/JC IMAGEM
Decreto do governo do Estado proíbe banho de mar e atividades do calçadão - LEO MOTTA/JC IMAGEM

A maioria das empresas participantes (76%) possuía até 20 funcionários antes da pandemia da covid-19 e apenas 3% tinham mais de 300, ainda segundo dados da pesquisa comentados pela especialista. "Isso corrobora o levantamento das entidades, que apontam que 80% das empresas de turismo de Pernambuco são médias, pequenas ou micro", diz Carla Borba. 

Em média, os empresários entrevistados preveem uma perda de R$ 1,7 milhão com a crise por empresa. Na avaliação da professora, o cenário de Pernambuco reflete a realidade do País.  

A pesquisadora cita dados da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), que projeta a falência de 10% dos hotéis, enquanto a Confederação Nacional do Turismo (CNTur) estima que 30% dos restaurantes e similares em toda a rede brasileira não suportarão a falta de clientes. Até 200 mil estabelecimentos podem fechar as portas, "gerando uma onda maciça de desemprego num curto espaço de tempo", alerta. 

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Restaurantes de hotéis também ficaram fora de uso - Mona Lisa Dourado/JC

Estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também apontam que o turismo já perdeu mais de R$ 14 bilhões desde o início da crise, sendo R$ 11,96 bilhões na segunda quinzena de março (queda de 84% no faturamento em relação ao mesmo período de 2019) e R$ 2,2 bilhões na primeira metade de março. Os prejuízos já sofridos pelo setor, conforme a CNC, têm potencial de reduzir 295 mil empregos formais no País em três meses.

Em Pernambuco, segundo a Abav-PE, até 2019 havia 436 agências, sendo 98% micro e pequenas empresas.

Já a Abrasel estima em 15 mil o número de restaurantes no Estado. O presidente da entidade, André Araújo, ressalta que antes das medidas anunciadas pelo governo federal, a projeção era de que pelo menos 10% dos trabalhadores do setor fossem demitidos, cerca de 20 mil em Pernambuco. "Com as MPs e a abertura de uma frente de diálogo em prol da retomada, imagino que a partir da próxima semana poderemos ter um cenário distinto."  

Divulgação
Cerca de 40 mil pessoas dependem do turismo em Porto de Galinhas, segundo o Porto Convention - Divulgação

A ABIH-PE, por sua vez, conta com 87 hotéis associados (metade deles de pequeno porte, com menos de 50 apartamentos), que empregam cerca de 15 mil trabalhadores. No caso do segmento de eventos, são pelo menos 48 empresas no Estado, com cerca de 5 mil trabalhadores formais na RMR.

Em 2019, o setor faturou no Estado R$ 9,5 bilhões, cerca de 3,9% do PIB do Estado, segundo dados da Empetur e da Secretaria estadual de Turismo, Lazer e Esportes, que não têm dados consolidados sobre o total de trabalhadores do turismo em Pernambuco. Para este ano, o impacto total ainda não foi mensurado.

ESPERANÇA NO TURISMO REGIONAL

Um aspecto positivo apontando pelo levantamento, analisa Carla Borba, é o fato de mais de um terço dos entrevistados acreditarem na retomada das atividades a partir de junho. "É um dado valioso porque demonstra que não abandonaram os empreendimentos e que continuam acreditando neles", analisa. 

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"A ocorrência da pandemia na baixa estação no Brasil não deixa de ser um atenuante", completa a especialista, para quem a estratégia de recuperação passará pelo investimento no turismo regional. 

No mundo inteiro, não há uma solução na caixinha. Os voos vão demorar a retornar e os turistas ainda estarão inseguros. Por isso, será mais plausível pensar em viajar mais perto de casa
Carla Borba


IMPACTO EM PORTO DE GALINHAS

No principal destino turístico do Estado, as praias estão fechadas desde o dia 22 de março de 2020 por decreto municipal da Prefeitura de Ipojuca. O município possui a maior orla de Pernambuco, com 33 quilômetros de praias. Além de Porto de Galinhas, as mais conhecidas são Maracaípe, Muro Alto e Serrambi, que juntas  concentram a maior parte dos hotéis - todos agora com atividades suspensas - e do fluxo de turismo de lazer do Estado. 

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Nas recordações do presidente do PGC&VB e sócio do Hotel Village, Eduardo Tiburtius, o período atual lembra o da crise da cólera, entre o fim de 1991 e início de 1992, quando as praias também foram interditadas e a hotelaria viu a ocupação cair para 5% a 10%. Naquele momento, como hoje, o associativismo foi fundamental para manter o trade unido e garantir a retomada, com ações conjuntas, ressalta Tiburtius.

Desta vez, uma das medidas em curso é a compra antecipada de passeios de jangada para colaborar com os trabalhadores que ficaram sem renda e não tinham fluxo de caixa. "É uma ideia que ajuda os jangadeiros, com dinheiro para sobrevivência imediata, e também nos permite oferecer um diferencial aos hóspedes quando a atividade voltar", destaca.

Foto: Reprodução/Facebook
Hotéis tiveram que interditar áreas comuns - Foto: Reprodução/Facebook

Outra ação estudada tem como foco os restaurantes. "Neste caso, a proposta é oferecer meia-pensão aos clientes, mas em vez de fazerem a refeição no hotel, iriam aos estabelecimentos da vila. Ainda vamos conversar para acertar os detalhes" diz.

Tiburtius conta que as poucas reservas que ainda chegam neste momento são apenas para setembro, e a maior parte de turistas da região. Até antes da pandemia, 75% dos viajantes de Porto vinham do Sul, Sudeste e Centro-Oeste; 5% a 7%, do exterior, principalmente Argentina, e cerca de 20%, do próprio Nordeste. Agora, esses percentuais devem se inverter.

Da mesma forma que um paulista, por exemplo, terá dificuldade de vir para cá, o pernambucano terá dificuldade de sair.
Eduardo Tiburtius

TIÃO SIQUEIRA/JCIMAGEM
As informações sobre as proibições estão sendo feitas por meio de avisos sonoros - TIÃO SIQUEIRA/JCIMAGEM

Pesquisa anterior já divulgada pelo PGC&VB, também em parceria com o dHT da UFPE, apontava que a paralisação dos estabelecimentos por 90 dias significaria uma frustração de receita geral em todos os segmentos de R$ 976 milhões. Isso considerando que uma média de 100 mil turistas por mês frequentam o destino, com permanência média de sete noites e gasto médio de R$ 465 por dia.

 

O Porto de Galinhas Convention estima que pelo menos 40 mil pessoas (incluindo as famílias dos funcionários) dependam direta ou indiretamente do turismo em Ipojuca. Entre eles, estão 405 bugueiros, 357 taxistas, 120 jangadeiros e 1.500 vendedores de praia. De acordo com a Secretaria de Turismo do município, o total de trabalhadores formais e informais é de 25 mil.

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Um dos principais pontos turísticos de Pernambuco, a praia de Porto de Galinhas se encontra interditada devido à pandemia do novo coronavírus - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM

Atualmente, Porto conta com 16 grandes hotéis, 230 pousadas e 120 restaurantes. O destino soma mais de dois mil leitos, considerando também albergues e flats.

Os hotéis não foram obrigados a fechar as portas. Entretanto, com as medidas de isolamento social, redução drástica de voos e falta de turistas, a maioria suspendeu as atividades. Os que continuaram funcionando atendiam a um residual de turistas que ainda não haviam conseguido voltar para casa ou agregam flats de segunda moradia.  

REIVINDICAÇÕES

No dia 23 de março, o trade turístico do Estado entregou uma carta de intenções ao governo de Pernambuco solicitando ações como prorrogação do prazo para pagamento de impostos, redução do ICMS na conta de energia e uso da Arena de Pernambuco e do Centro de Convenções para ampliação de leitos e tratamento de pacientes.

No último dia 3 de abril, o governo do Estado anunciou a prorrogação do prazo para o pagamento do ICMS de março, abril e maio, que ficou para julho, agosto e setembro, respectivamente. 

Em 1o. de abril, a Prefeitura do Recife também já havia adiado o pagamento do ISS.

Em Ipojuca, a assessoria de Imprensa da Prefeitura informa que um Projeto de Lei foi encaminhado pelo Executivo à Câmara dos Vereadores do município solicitando a prorrogação do imposto para a rede hoteleira, mas a proposta ainda aguarda apreciação e votação pelos vereadores.

Para Eduardo Tiburtius, todas as medidas que possibilitam a prorrogação de pagamentos de impostos "são bem-vindas para mexer o menos possível no caixa agora e fazer previsões com segurança".

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Em relação às MPs de redução de jornada e salários, ele avalia que terão impactos distintos no sentido de "segurar empregos", conforme o perfil do destino. Em Porto de Galinhas, a previsão de retomada é para julho, no entanto, com pelo menos dois meses "de baixíssima ocupação", ressalta Tiburtius, que diz ter precisado demitir 75 dos 250 funcionários do Village.

Sobre o pleito junto à Celpe, não foi possível negociar a cobrança da demanda contratada. Os hotéis, portanto, perderam o crédito em energia que não utilizaram. "Pagamos 20% e pelo menos pudemos parcelar o saldo em 10 vezes", afirma. 

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No mundo inteiro, não há uma solução na caixinha. Os voos vão demorar a retornar e os turistas ainda estarão inseguros. Por isso, será mais plausível pensar em viajar mais perto de casa

Carla Borba
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Da mesma forma que um paulista, por exemplo, terá dificuldade de vir para cá, o pernambucano terá dificuldade de sair.

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Por enquanto todas as atividades continuam suspensas em Porto de Galinhas por decretos municipal e estadual - FOTO:TIÃO SIQUEIRA/JCIMAGEM
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Quem estiver na Praia de Porto de Galinhas não poderá levar mesas, cadeiras e afins para a faixa de areia para curtir a virada do ano. - FOTO:TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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Um dos principais pontos turísticos de Pernambuco, a praia de Porto de Galinhas se encontra interditada devido à pandemia do novo coronavírus - FOTO:TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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Vista do Parque das Esculturas, no Recife - FOTO:ARNALDO CARVALHO/ACERVO JC IMAGEM
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Praia de Boa Viagem concentra a maioria dos hotéis do Recife - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JCIMAGEM
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Decreto do governo do Estado proíbe banho de mar e atividades do calçadão - FOTO:LEO MOTTA/ACERVO JC IMAGEM
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Estado conta com mais de 15 mil restaurantes - FOTO:MONA LISA DOURADO/JC

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