Desinformação e necessidade levam a tumulto e filas na busca pelo auxílio emergencial no Recife

Mesmo com o dinheiro estando na poupança digital, muita gente não consegue acessar o Caixa Tem e vai ao banco por precisar do dinheiro
Lucas Moraes
Publicado em 27/04/2020 às 15:02
Fila na Caixa Econômica do bairro da Encruzilhada, no primeiro dia para saque do auxílio emergencial nessa segunda Foto: Yacy Ribeiro/ JC Imagem


A desinformação e a necessidade da renda básica emergencial paga pelo governo federal têm se sobressaído a todas as recomendações para evitar aglomerações, o contato social e, assim, não se contaminar ou disseminar o novo coronavírus. Nesta segunda-feira  (27), primeiro dia em que as agências da Caixa abriram para a população fazer o saque em espécie do auxílio, situações degradantes se repetiram nas portas das unidades do banco. Em filas quilométricas, gestantes, idosos, mães com crianças de colo e pessoas com deficiência se digladiavam - em alguns momentos, literalmente - na busca por atendimento. Alguns, depois de uma noite sem sereno, debaixo de chuva e sol, numa espera de até 14 horas. 

YACY RIBEIRO/JC IMAGEM - Filas em frente a agência da Caixa Econômica do bairro da Encruzilhada.

Roseane Maria da Silva, 47 anos, moradora da Bomba do Hemetério, iniciou a sua peregrinação pelo auxílio às 20h da noite do domingo (26). Na verdade, o que ela mesma chama de "luta pelo dinheiro" já vem se arrastando há mais de 15 dias. "Eu sou autônoma, faço minha contribuição individual ao INSS e não consigo ter acesso ao dinheiro. O benefício foi aprovado, mas é muito bom dizer que as coisas funcionam sem saber. Eu cheguei aqui à noite, porque mesmo com o cadastro aprovado não tem dinheiro na conta, e eu preciso comer", desabafa. 

Com o corpo espremido, de um lado pelo portão da agência da Caixa Econômica Federal da Encruzilhada e do outro lado por uma multidão que buscava o espaço ocupado por ela assim que desocupado. Demorou. Roseane só conseguiu atendimento por volta das 10h30. 

YACY RIBEIRO/JC IMAGEM - Filas em frente a agência da Caixa Econômica do bairro da Encruzilhada.

"Tudo que ela está falando é verdade. Eu cheguei ontem à noite também e não consegui ser atendido ainda. Está uma desorganização. Tinha uma fila das pessoas que chegaram cedo. A polícia veio aqui por volta de 1h da madrugada. Fez umas fichas de papel e nos entregou. Eu sou o 51, mas ainda estou aqui", lamenta André Gomes, 43 anos, que tentava sacar o dinheiro. 

Pelo menos quatro seguranças patrimoniais faziam o controle do portão que separa a agência da rua Castro Alves, na Encruzilhada. A cada mínimo sinal de abertura, empurra-empurra e confusão. As fichas distribuídas pela polícia, segundo os beneficiários, não deram conta. Muito mais gente chegou pela manhã e também queria entrar. 

Dentro da agência o movimento era tranquilo, sem filas. Do lado de fora, a fila percorria praticamente um quarteirão da Castro Alves até chegar a avenida Norte. Por diversas vezes, um funcionário da Caixa tentou organizar o início da fila - mais tumultuado - sem sucesso. À reportagem apenas foi dito que "o importante é colocar o pessoal para dentro". Sem entrevistas. 

Pouco mais de 20 a 30 minutos após chamado, dois carros da Polícia Militar chegaram para tentar ajudar no controle. De dentro da agência, os policiais continham o número de pessoas que entrava, de 5 a 10 por vez. 

Do lado de fora, além da desorganização, a desinformação. Desde quando a agência foi aberta nesta segunda-feira (27), às 8h, nenhum funcionário do banco público tirava as dúvidas das pessoas antes do atendimento. Em consultas de populares à própria reportagem, pelo menos 10 pessoas que estavam buscando atendimento não o conseguiriam hoje, por não se encaixarem nas regras para acesso ao serviço.

"Não tem ninguém para informar. A gente vem aqui, ninguém atende. Fica na fila para saber que não pode ser atendido, o que tem é segurança e policial, ninguém para conversar. Eu vou me informar por onde? Na internet, eu confio em quem? É tanta mentira", diz uma beneficiária do Bolsa Família que veio pedir ajuda à reportagem.

YACY RIBEIRO/JC IMAGEM - Filas em frente a agência da Caixa EconÎmica do bairro da Encruzilhada.

Para o saque da renda emergencial em espécie, no aplicativo CAIXA Tem, teoricamente bastaria informar o valor a ser retirado e gerar um código autorizador para saque nos caixas eletrônicos e casas lotéricas. As pessoas não conseguem. O aplicativo não funciona. E a não necessidade de corrida às agências, divulgada pela Caixa, passou a ser necessária para muitos.

Por volta das 15h55 de hoje, a Caixa divulgou a informação de atualização do aplicativo CAIXA Tem, com a opção “saque sem cartão”. Segundo o banco, o aplicativo vai gerar um código autorizador para saque, com validade de duas horas, que deve ser utilizado nos caixas eletrônicos, nas unidades lotéricas ou nos correspondentes CAIXA Aqui.

Hoje, 27 de abril, estava liberado o recebimento do dinheiro para os nascidos em janeiro e fevereiro. Os demais seguem o calendário: 

• 28 de abril – nascidos em março e abril

• 29 de abril – nascidos em maio e junho

• 30 de abril – nascidos julho e agosto

• 04 de maio – nascidos em setembro e outubro

• 05 de maio – nascidos em novembro e dezembro

Quem indicou conta bancária anterior ou recebeu os R$ 600 em substituição ao Bolsa Família não tem restrição para saque, mas enfrenta a mesma fila de espera nas agências. 

CAIXA

Desde quarta-feira (22), 1.102 agências pelo País passaram a abrir com 2 horas de antecedência para atendimento de serviços essenciais, funcionando das 8h às 14h, segundo a Caixa. Para otimizar o controle e organização das filas, o banco alocou mais de 2.800 vigilantes adicionais, bem como recepcionistas para reforçar orientação e atendimento ao público.

Além da agência da Encruzilhada, a reportagem do Jornal do Commercio encontrou grandes filas na Caixa Econômica de Afogados e Imbiribeira, no Recife, e Prazer, em Jaboatão. 

Desde 9 de abril, quando teve início o pagamento do Auxílio Emergencial do Governo Federal, a CAIXA já creditou o benefício para 39,1 milhões de pessoas, num total de R$ 27,7 bilhões. Dentre os inscritos pelo app/site, 15,2 milhões já receberam o auxílio.

Até às 14h desta segunda-feira (27), 48,4 milhões de cidadãos já se cadastraram para recebimento do benefício.

Pagamento beneficiários do Bolsa Família (1ª parcela)

28 de abril de 2020 pagamento para final do número de identificação social (NIS) 8
29 de abril de 2020 pagamento para final do número de identificação social (NIS) 9
30 de abril de 2020 pagamento para final do número de identificação social (NIS) 0

 

 

 

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