Demétrius Montenegro: "Infectologia exige do médico um olhar mais humanizado"

JC
Publicado em 23/12/2020 às 7:06
FUTURO Seremos os sobreviventes a contar a história da covid-19, destaca o infectologista Foto: MIVA FILHO/SES/DIVULGAÇÃO


O ano de 2020 entra para a história marcado pela pandemia do novo coronavírus. Além do isolamento social, máscaras e higiene constante, ganhou a cena um time de médicos mais reservado aos bastidores e à pesquisa: os infectologistas. Demétrius Montenegro, 50 anos, um dos profissionais mais requisitados do Estado quando o assunto é o coronavírus, fala da rotina desses médicos voltados aos acometidos por doenças infecciosas e dos desafios deste ano terrivelmente histórico.

JORNAL DO COMMERCIO – A pandemia da Covid-19 revelou ao brasileiro comum uma especialidade menos conhecida, que é a infectologia. Do que exatamente trata o infectologista?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – O infectologista é o médico que, nos hospitais, atua no serviço de controle de infecção hospitalar. Normalmente, ele é a peça-chave deste setor, que pode até ter outras especialidades, mas é obrigatória a presença estrita de infectologista no controle de infecção hospitalar. Ele também trata de pacientes dos quadros de doenças como HIV, tuberculose, infecções urinárias, e também se dedica à pesquisa.

JC – E como surgiu a especialidade da infectologia?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – A infectologia foi a primeira especialidade a surgir. As doenças infecciosas sempre existiram, como a hanseníase, a peste, as grandes pandemias da Idade Média. Ninguém sabia o que era um AVC, um infarto, um câncer, como se sabe hoje. Mas não havia esse nicho daquele que trata das doenças infecciosas. O que alavancou a área foram as doenças parasitárias, as chamadas doenças de Terceiro Mundo, como a malária. Depois que se conseguiu identificar a malária, foram muitas mudanças. Sem contar com a contribuição das medidas sanitárias de Oswaldo Cruz para a febre amarela. Mas lá no começo, bem no início, esse processo veio a partir da observação de um médico em uma unidade de parto. Observou-se que as mulheres morriam muito mais em partos feitos por médicos homens que os partos feitos pelas enfermeiras. E o que era diferente? Elas lavavam as mãos. Essa observação de que uma simples lavagem das mãos poderia prevenir e diminuir a morte foi importantíssima para despertar os primeiros estudos sobre as infecções e a preocupação quanto à prevenção. Não era chamada de infectologia como hoje, mas os médicos atuavam como infectologistas, no controle das doenças infecciosas.

JC - A partir de quando se tornou usual o encaminhamento a um infectologista?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – A mudança veio com a epidemia do HIV, que trouxe para a especialidade um novo olhar, e daí, por isso, talvez, as pessoas na época não enxergassem como uma especialidade. Isso também porque, com o preconceito que as pessoas tinham com a doença, havia um certo preconceito com os médicos que tratavam os pacientes com o vírus. Ir para um infectologista era meio que sinônimo da pessoa ter o HIV. Não se imaginava que ele podia recorrer a um infectologista para outras doenças, como hanseníase, por exemplo. Ainda hoje há este estigma. Há paciente que chega no consultório e pede uma declaração, um comprovante de comparecimento, e pergunta logo se no meu carimbo tem escrito 'infectologista' ou se é apenas 'médico'. Em termos da evolução da especialidade, a pandemia da H1N1 também foi importante. A partir dela, começou-se a ter um novo olhar voltado ao infectologista, principalmente com o advento das superbactérias hospitalares, e a área ganhou uma nova força, realmente.

JC - Como Pernambuco se coloca no cenário nacional?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – Pernambuco se destaca, sem dúvida. Temos o maior programa de residência de infectologia do Estado na Faculdade de Ciências Médicas, na UPE, e anualmente preenchemos todas as vagas. Ele é tão bem conceituado que sempre tem residente de outras universidades, com estágios opcionais no Oswaldo Cruz. Os médicos escolhem vir para cá. E este ano recebemos uma proposta da Escola Paulista de Medicina e da USP de mandar os residentes fixos de Pernambuco e criar um rodízio fixo da residência de São Paulo. A Comissão de Residência Médica do Oswaldo Cruz conversou comigo há um mês sobre a possibilidade de manter esse convênio. É algo muito bom. É um reconhecimento da qualidade do nosso ensino e da formação dos médicos. É muito interessante esse movimento hoje porque, pelo próprio tipo de doença de que a gente cuida, tirando a questão das infecções hospitalares, que envolve também os hospitais privados, de uma maneira geral, o infectologista cuida das chamadas doenças negligenciadas, que atingem uma parcela mais vulnerável da população.

JC - Não é, definitivamente, um ramo da medicina para vaidades?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – Isso. A infectologia exige do médico um olhar diferenciado, mais humanizado, digamos assim.

JC - Mas isso não seria um requisito para todo médico?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – Sim, mas o que quero dizer é que a gente olha para a pessoa com essas doenças tentando visualizar não só a doença, mas o contexto social em que ela está inserida, que é sempre de muita vulnerabilidade. Não adianta só tratar o HIV se o paciente está num ambiente de muita vulnerabilidade, enfrenta uma série de problemas no seu dia a dia. E nossos pacientes vivenciam muitas dificuldades. A começar pelas doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV, as hepatites, a sífilis, que cada vez mais cresce.

JC – Como é o campo de trabalho? Há oportunidades para os novos profissionais?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – Normalmente, no Brasil, o infectologista faz o atendimento. Nos países em que a infectologia não é oferecida como especialidade, a matéria é inserida em outras, e muitos infectologistas fazem mais a parte de pesquisa de HIV, de antibióticos, de vírus... No Brasil é mais de assistência mesmo. E aí a área de atuação é no serviço público, tratando de HIV e das demais doenças infecciosas, e também na rede privada. Trabalho no Oswaldo Cruz e no Correia Picanço, que são dois hospitais referência para a área. No Oswaldo Cruz, faço infectologia geral; trato os pacientes de HIV e outras doenças infecciosas, e agora, da covid. Também atuo na rede privada, em comissões de controle de infecção hospitalar, e trabalho acompanhando pacientes com pneumonia, infecção urinária, HIV, meningite, as doenças infecciosas em geral.

JC – E o que a guerra contra a covid-19 nos deixa de lição?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – Que as doenças infecciosas estão aí, que elas não acometem apenas as pessoas mais vulneráveis. E que se a humanidade não começar a cuidar da natureza de uma maneira mais responsável, outras pandemias de vírus como este, ou até piores, podem acontecer. Vírus desconhecidos que só infectam animais, de repente, podem contaminar pessoas, e dessas serem transmitidos para outras.

JC - Mas as doenças infecciosas sempre existiram. O que mudou?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – É um desafio constante. Agora é a covid, mas surtos e epidemias se repetem. Tivemos meningite, leptospirose, dengue, chicungunha, chegou a zika... Sempre há algo movimentando o cenário das doenças infecciosas. Macfarlane Burnet e David O. White, médicos que foram contemplados com o Nobel como pesquisadores, fizeram uma análise nos anos 1960 que me chamou muito a atenção. Era algo assim: "a previsão mais provável sobre o futuro das doenças infecciosas é que será muito monótono". E hoje a infectologia está longe de ser monótona. A gente está sempre em vigilância e em guarda. Veja aí o ebola: a gente também passou por este processo de construção e de se preparar para uma possível chegada de um paciente com ele, há uns quatro anos. O ebola, felizmente, não chegou por aqui, mas veio essa pandemia.

JC – E que legado esse vírus deixa para o homem comum?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – Não sei se as pessoas se deram conta, mas todo mundo hoje faz parte da história. Quem tem avós muito idosos que tenham história para contar da gripe espanhola tem a história viva em casa. Seremos nós e nossos filhos e netos daqui a 50, 70 anos, os sobreviventes... Vamos contar como foi ter vivido numa época em que ninguém podia sair de casa. Imagina uma criança de dez anos estudando um ano inteiro pelo computador... O que ela vai contar de história no futuro? É bom viver isso? Óbvio que não, mas é uma situação inexorável. A gente está tendo que aprender a conviver com isso, não sabemos quando vai acabar, e temos que tirar lições dessa realidade.

JC – O que esperar da vacina?

DEMÉTRIUS MONTENEGRO – A vacina vai ser a chave para voltarmos a uma vida normal, mas as pessoas precisam ter a noção de que, mesmo com o início da vacinação, não vai existir um botão para desligar a pandemia e todo mundo voltar ao que era antes. Por muito tempo, e ainda não se sabe por quanto tempo, vamos precisar das medidas de distanciamento social, máscara, e lavagem das mãos várias vezes ao dia. Porque as pessoas não vão ser vacinadas todas de uma hora para outra, vai ser escalonado. E até se conseguir, de fato, um número de pessoas tal que permita atingir uma proteção de rebanho para aquelas que não podem se vacinar – e este é um termo ligado à pesquisa, ao universo das vacinas - será preciso um certo tempo. Todo mundo precisa contribuir.

Leia Mais:

>Malhação em casa dá resultado, sim

>O que é uma comorbidade?

>Alimentos funcionais são os queridinhos da boa saúde

>Vacina é peça-chave na prevenção de doenças

>Automedicação é conduta de risco comum entre brasileiros

TAGS
Jornal do Commercio Pernambuco Saúde Saúde todo dia
Veja também
últimas
Mais Lidas
Webstory