Com casos de covid no pico e colapso em vários estados, Bolsonaro abre mão de protagonismo na pandemia

Presidente da República tem dado sinais de que pretende abrir o diálogo, ainda que seletivo, com os entes da federação e assume uma postura mais defensiva, de recuo das pautas ideológicas com o agravamento da pandemia da covid-19
Mirella Araújo
Luisa Farias
Publicado em 27/03/2021 às 8:00
O senador também disse ter levado as demandas de governadores ao presidente Jair Bolsonaro Foto: MARCOS CORREA/PR


A pandemia da covid-19 completou um ano e ainda não há entendimento entre os entes federados sobre uma ação coordenada para o seu enfrentamento. Nesse período, o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) criticou as medidas restritivas adotadas pelos estados e municípios, propagou o uso do tratamento precoce da doença com medicamentos cuja eficácia não foi comprovada, e apareceu constantemente sem uso de máscara. A busca pela vacina virou mais um capítulo do acirramento político do país, e diante da falta de um cronograma para compra e distribuição dos imunizantes, estados e municípios encontraram nos consórcios uma forma de agilizar a vacinação da população.

Agora, com o país atingindo o patamar de 300 mil mortos pela covid-19, o governo federal sinalizou que pretende sentar e discutir as ações através de um comitê de enfrentamento com representantes dos três poderes e governadores. Mesmo sendo considerado um passo importante e simbólico dado pelo presidente da República, na tentativa de reverter a pressão sofrida pelo seu governo, mais uma vez Bolsonaro é cobrado por abrir o diálogo de forma seletiva e sem abranger todos os atores envolvidos nestas ações.

“A situação do país tem se revelado progressivamente grave, com reações dos mais diversos segmentos. Então você vê a manifestação por parte do Congresso Nacional, manifestações constantes dos governadores, cujos conflitos já são conhecidos e a estratégia de jogar a culpa no colo deles, não é mais possível. O judiciário também tem se posicionado, por meio de alguns ministros, no sentido de exigir e realçar a necessidade de que o governo federal coordene o processo de enfrentamento dessa crise", avalia o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arthur Leandro.

Essa postura de recuo de Bolsonaro tem sido notada nas últimas semanas. Os filhos do presidente se empenharam em viralizar sua imagem com a frase “nossa arma é a vacina”. Após apontar possíveis efeitos colaterais do uso da máscara, mesmo sem provas, o presidente foi convencido por aliados a utilizá-la em suas agendas públicas. Anteriormente, Bolsonaro também voltou atrás ao afirmar que a covid-19 não se trata de uma “gripezinha”.

“Essa movimentação tenta normalizar a relação com os poderes constituídos. A substituição do comando do Ministério da Saúde, por exemplo, reflete uma reação ao avanço e organização crescente de diversos atores. Quem não acompanha os bastidores das negociações políticas, vê claramente os sinais de que o governo está sendo reativo nesse momento”, comenta Arthur Leandro.

O Centrão, que passou a integrar a base aliada do governo Bolsonaro, também tem pressionado por uma mudança de atitude do presidente. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) adotou um discurso duro na última quarta-feira (24), chegando a sinalizar a possibilidade de afastamento do presidente, principal fiador de Lira durante a eleição da presidência da Casa Baixa.

Lira disse estar dando um sinal amarelo para os erros “primários, inúteis e desnecessários” cometidos pelo governo no enfrentamento à pandemia. Sem citar diretamente o impeachment, ele chegou a afirmar que “os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável”.

O doutor em Ciência política e professor da ASCES/Unitas Vanuccio Pimentel vislumbra duas posturas antagônicas do presidente diante da pandemia. A primeira é a pessoal, que ele vem adotando desde o início, que acaba conflitando com a segunda, adotada por ele sempre que sofre pressão de atores políticos, sendo atualmente a própria base de apoio no Congresso Nacional. Resta saber qual das duas vai prevalecer no final.

“(O centrão) vê de maneira mais estratégica a eleição de 2022 e eu penso que ela pressionou o presidente a mudar de postura, a fazer essa reunião e agora eles pressionam, para a mudança de alguns ministros. Na reunião do Senado, o ministro das relações exteriores foi muito forçado a renunciar, tanto pela oposição como inclusive por alguns atores da base. O próprio (Eduardo) Pazuello tinha uma pressão muito grande para que eles saíssem, ou seja, o Centrão tenta mexer estrategicamente no governo”, explica Vanuccio.

Outro ponto de conflito entre Bolsonaro e o Congresso e até mesmo com os governadores é a definição do valor do auxílio emergencial. O presidente editou em 18 de março a Medida Provisória nº 1.039/2021, que implementa o novo auxílio, nos valores de R$ 150 a R$ 375. A validade da medida é de 120 dias e precisa ser referendada pelos deputados e senadores.

A oposição quer elevar o auxílio para R$ 600, assim como em 2020, mas para isso precisaria revogar a Emenda Constitucional 109 que estipulou o teto de R$ 44 milhões para o pagamento do auxílio. Na última quarta (24), governadores enviaram carta a Arthur Lira pedindo o aumento do valor da parcela.

Vanuccio acredita que a postura do presidente diante da pandemia é baseada em duas estratégias, segundo ele, arriscadas: a vacinação em massa que provocaria uma melhora gradual na economia e a volta do auxílio emergencial que melhoraria a sua imagem, ambas impactando positivamente no seu pleito para as eleições de 2022.

“O auxílio é muito menor do que o valor que ele pagou no ano passado. Por outro lado, outro fator é que o governo aposta que vai ter vacina suficiente para até o final do ano vacinar a população toda. Pelo que a gente está vendo, isso não é real, porque ele teria que vacinar até metade da população em junho e isso ele não consegue, não vai conseguir. Essa projeção de vacina basicamente depende de inúmeros fatores que o governo não controla”, explica.

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