GRANDE RECIFE

Veja punição para quem insistir em entrar no mar na Igrejinha de Piedade, interditada após ataques de tubarão

Trecho de 2,2 km da praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, teve o banho de mar proibido nesta terça-feira (27) por tempo indeterminado após dois ataques de tubarão em 15 dias

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 27/07/2021 às 15:09
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
A interdição ficará em vigor por tempo indeterminado - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Após ter registrado dois ataques de tubarão em um intervalo de 15 dias, um trecho de 2,2 km da praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, teve o banho de mar proibido nesta terça-feira (27) por tempo indeterminado, enquanto a caminhada pela areia e o comércio na área continuam liberados. Segundo os poderes municipal e estadual, o banhista que, quando orientado por um dos fiscais presentes, insistir em ficar nas águas, será conduzido pela polícia até a delegacia mais próxima - medida autorizada desde 2014 por decreto.

A partir disso, o cidadão pode responder por desacato contra funcionário público no exercício da função ou em razão dela, lei presente no artigo 311 do Código Penal Brasileiro, que prevê pena de detenção de seis meses a dois anos ou multa para quem descumpri-la.

"Nossa intenção é conscientizar ainda mais a população sobre o risco, mas que podemos conviver com ele desde que sejam adotadas e aceitas as medias que os órgãos e segurança estão fazendo. As pessoas serão orientadas a sair da água e, se desobedecerem, serão detidas e encaminhadas à delegacia pelo crime de desacato", explicou o Coronel Valdy Oliveira, presidente do Comitê de Monitoramento de Incidentes com Tubarões do Estado (Cemit), em anúncio da medida.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
A interdição ficará em vigor por tempo indeterminado - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Para implementar a medida dura e inédita no litoral pernambucano, que compreende a área localizada entre a Igrejinha de Piedade e o Barramares Hotel, cerca de 80 fiscais da prefeitura estão no local nesta terça para orientar os banhistas, além de apoio do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar.

O coronel Valdy pede que a população atue de forma conjunta às forças de segurança, obedecendo e respeitando todas as medidas preventivas. "Os últimos ataques que aconteceram por aqui foram em pessoas que desobedeceram as medidas de segurança que adotamos. Esse último caso, por exemplo, temos relato de que a vítima já tinha sido retirada duas vezes do mar pelo corpo de bombeiros, e da terceira vez, quando ia ser retirado, ele foi atacado", completou o coronel.

Como parte da ação, dez banheiros químicos e dez chuveiros ainda foram instalados no trecho, para atender a demanda da área. A ideia é justamente para tentar evitar que os banhistas entrem no mar e se arrisquem. Isso porque verificou-se que nos últimos ataques ocorridos naquela área, as vítimas entraram na água para urinar ou para tirar a areia do corpo.

"Uma das justificativas das últimas ocorrências é que as pessoas entravam no mar para se banhar ou fazer suas necessidades, então a prefeitura resolveu ampliar a quantidade de banheiros químicos e instalar chuveiros para que pessoas que frequentam essa área possam usar os equipamentos e não entrem no mar", explicou o vice-prefeito de Jaboatão, Luiz Medeiros.

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José Ivan é barraqueiro há 20 anos no local e teme que a proibição do banho de mar afasta os clientes da Orla. Fragilizado pela pandemia da covid-19, que diminuiu drasticamente o movimento da praia, a situação parece longe de melhorar. “Estávamos sem poder trabalhar por conta da pandemia, e agora quando o movimento tava começando a reagir, de repente veio o primeiro ataque, depois o segundo, e agora a interdição do banho. Fica complicado saber como vai ficar a nossa situação", desabafou.

Um auxílio emergencial municipal de R$ 180 durante três meses, destinado aos comerciantes de praia, está sendo discutido pela prefeitura. E deve entrar em vigor nos próximos dias, garantiu o vice-prefeito.

Esta é a primeira vez que uma interdição é adotada no litoral pernambucano para evitar ataques de tubarão contra banhistas. Os detalhes foram definidos em reunião na sede da Secretaria de Defesa Social do Estado, nessa segunda-feira (26), e a interdição do trecho perigoso leva em consideração a recomendação feita pelo pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco e especialista no assunto, Jonas Rodrigues, em laudo técnico entregue ao Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). A recomendação foi publicada em primeira mão pela coluna Ronda JC

O prefeito de Jaboatão, Anderson Ferreira, assinou o decreto municipal determinando a interdição já a partir desta terça-feira. O banho de mar, portanto, está proibido. No texto, destacou-se que 14 incidentes já ocorreram no trecho citado.

Paralela à ação, técnicos da prefeitura e pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) realizam estudos na área para tentar encontrar uma solução e mitigar o problema.

Na areia, banhistas e frequentadores da praia aprovaram a interdição. "É triste, né? Viajar quatro horas e saber que não posso tomar um banho de mar é ruim, mas é pela segurança, então tudo bem. Agora é só banho de rio, mesmo", revelou Deilton Cesar Santana, que veio de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste, para curtir uma praia nesta terça. 

A paulista Marcia Maria da Silva, também decidiu não arriscar. Ela veio turistar em Pernambuco e, após os dois ataques de tubarão deste mês, optou por ficar só olhando. "Estou hospedada aqui mesmo em Jaboatão, vim a passeio e até fiquei sabendo desse primeiro ataque que teve esse mês, mas mesmo assim vim na teimosia querendo nadar. Depois desse segundo ataque, eu recuei e vi que é perigoso mesmo, né? Vou ficar só olhando mesmo". 

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tubarão - artes jc

 

POR QUE O RISCO MAIOR NA ALTURA DA IGREJINHA?

Existe uma geografia favorável às investidas naquele ponto. Quem explica a razão para que quase 20% de todos os ataques de tubarão no Estado tenha sido no local - segundo o Cemit - é a especialista em tubarões, oceanóloga e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Rosângela Lessa. "Naquele ponto há uma abertura nos arrecifes que faz com que as águas do raso e das áreas mais fundas se relacionem. Se o tubarão estiver circulando na região, tem acesso fácil às áreas mais rasas. Também há um aprofundamento da costa naquele local, o que facilita a aproximação dos animais”, afirmou em entrevista ao JC, após o ataque do dia 10 de julho.

SAÚDE

Vítima mais recente de ataque, Heverton Guimarães Reis segue internado no Hospital da Restauração (HR), na área central do Recife. Mordido na parte posterior da coxa esquerda e glúteos, ele precisou passar por cirurgia ainda no domingo. Ontem, já foi encaminhado para a enfermaria, onde segue estável, consciente e orientado. Ainda não há previsão de alta. Por causa da pandemia da covid-19, visitas estão ainda restritas.

Heverton foi mordido pelo tubarão por volta de 12h20, segundo o Corpo de Bombeiros. Aquela teria sido a segunda entrada dele no mar. Testemunhas contaram que a vítima foi alertada para não entrar na água. A orientação foi dada por barraqueiros, que lembraram o ataque ocorrido no último dia 10, e também por bombeiros que trabalhavam no local. Mesmo assim, o despachante arriscou e entrou no mar. Por pouco, não perdeu a vida.

O local tem várias placas alertando sobre o perigo de entrar no mar e nadar. Mas quase sempre são ignoradas pela população. Dos 68 ataques em Pernambuco (incluindo quatro no Arquipélago de Fernando de Noronha) desde o ano de 1992, 14 foram na altura da igrejinha de Piedade.

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