ESTEREÓTIPO

Para além do chapéu de cangaceiro: o que o Nordeste quer dos pré-candidatos à Presidência da República?

Segundo especialistas, região quer debates além do uso de adereços locais e que abordem soluções para educação, obras estruturadoras importantes para o desenvolvimento da região e combate à seca, por exemplo

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 06/12/2021 às 13:34
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Moro, Bolsonaro e Doria usando o folclórico chapéu de couro - FOTO: REPRODUÇÃO/REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO
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Durante visita ao Recife no domingo (5), o ex-juiz e pré-candidato à Presidência da República Sergio Moro (Podemos) pôs na cabeça o folclórico chapéu de cangaceiro. O adereço associado instantaneamente à cultura nordestina, que costuma aparecer na cabeça dos presidenciáveis a cada eleição, marca os primeiros passos do ex-ministro em busca de votos na região considerada reduto político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um de seus principais adversários.

Assim como Moro, nomes que disputaram outras eleições fizeram algo semelhante, incluindo a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e os então candidatos Geraldo Alckmin (PSDB), Fernando Haddad (PT), José Serra (PSDB), Aécio Neves (PSDB), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), entre outros.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) vestiu a peça em mais de uma oportunidade, tanto durante sua campanha, em 2018, quanto em viagens pelo Nordeste depois de eleito. O mandatário também tem o costume de usar um chapéu de vaqueiro, menor e mais arredondado, quando visita a região. Ele fez uso do item na inauguração do aeroporto de Vitória da Conquista, na Bahia, em 2019, e durante viagem ao interior do Piauí em 2020, por exemplo.

TATIANA FORTES/O POVO PARA A REDE NORDESTE
Bolsonaro com chapéu de cangaceiro - TATIANA FORTES/O POVO PARA A REDE NORDESTE

"Recorrer ao estereótipo é, sem dúvidas, uma estratégia de comunicação. Com isso, positiva ou negativamente, o candidato se projeta na mídia”, aponta o sociólogo Igor Damasceno.

“Este elemento comunicativo integra o que podemos chamar de marcas discursivas dos clichês e pode se relacionar com interações entre identidades regionais e a mídia. É algo que tem muita adesão pela simplicidade no discurso e na performance", sublinha.

Apesar dos acenos — ou tentativas — ao Nordeste, que é o segundo maior colégio eleitoral entre as regiões do País, com 39 milhões de eleitores, usar o chapéu de cangaceiro tem surtido pouco ou nenhum efeito para quem o coloca na cabeça. É o que explica o cientista político Elton Gomes, professor da Faculdade Damas.

"Em geral, o que temos na política brasileira, sobretudo na Nova República, é que uso de símbolos culturais, como o chapéu de cangaceiro, não tende a colar muito. Não temos grandes histórias de sucesso", afirma Gomes.

Na mesma linha, o cientista político Vanuccio Pimentel, professor da Asces-Unita, ressalta que isso pode apenas potencializar aproximação com grupos que já estavam dispostos a votar em determinado candidato. “Eu, particularmente, não penso que seja uma forma de ampliar potencial de votos, mas é uma maneira de criar empatia com quem já é simpatizante”, diz Vanuccio.

Redefinição da identidade nordestina

Confirmando o que apontam os especialistas, o uso do chapéu por Moro rendeu enormes críticas ao ex-juiz, exceto entre aqueles que ‘enfeitaram’ o político do Podemos com o adereço. Segundo o antropólogo Mauro Lins, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a reação ao comportamento de Moro tem sua gênese na época em que vivemos, que busca ressignificar a identidade da região Nordeste.

“Nas redes, vimos muitas pessoas incomodadas, pois vivemos em uma era de abundância tecnológica, uma fase de redefinição daquilo que entendemos como a identidade nordestina, que é muito complexa e não deve ser reduzida a apenas elementos de indumentárias”, argumenta Mauro Lins.

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Apoiadores de Fernando Haddad, Candidato à Presidência pelo PT, lotam a Praça do Carmo, no Centro do Recife-PE. ## - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

Para o jornalista e pesquisador em comunicação Antonio Lira,outra problemática em torno da utilização de símbolos regionais tem a ver com a identificação de quem o usa com a localidade. "Em 2018, Fernando Haddad (PT) quando esteve aqui durante sua campanha também usou o chapéu, mas não foi tão criticado quanto Moro está sendo agora. Porque o que há nesse caso é a identificação da pessoa com a região", diz Lira.

"Haddad é do Sudeste? É. Mas em 2018, ele chegou aqui representando Lula, que é de Pernambuco. Além disso, o projeto petista tem muita relação muito próxima com o Nordeste, tanto é que isso se materializa nas eleições e pesquisas."

Faltam planos para o Nordeste

FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
SÃO FRANCISCO Projeto vai trazer segurança hídrica para o Agreste, mas deverá deixar a água mais cara para os quatro Estados atendidos - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

Para o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco Adriano Oliveira, essa insatisfação também tem outra motivação: os nordestinos querem algo para além do debate identitário, querem mais educação, obras estruturadoras importantes para o desenvolvimento da região e combate à seca, por exemplo.

“O uso do chapéu mostra, por parte dos candidatos, o desconhecimento da região, especialmente, no que se refere aos problemas e soluções para resolver os desafios do Nordeste”, argumenta Oliveira.

“Sergio Moro poderia ter desembarcado por aqui para debater o problema da água, da seca, para debater a industrialização da região, o fortalecimento da agricultura. Mas não, sua fala ficou restrita ao combate à corrupção e ao uso de um chapéu de vaqueiro. O eleitor nordestino não quer saber disso. Ele quer saber como o Nordeste pode se desenvolver, se tornar um celeiro de empregos, como pode interagir com o mercado nacional e internacional”, emenda o professor.

No mesmo sentido, o economista e professor do Unit-PE Werson Kaval afirma que falta ao Nordeste um projeto de desenvolvimento que seja levado a sério. "Algumas obras essenciais para o Nordeste sequer começaram a ser construídas. Outras se arrastam há anos, seja com relação ao combate à estiagem, como a Transposição, ou à questão dos transportes, como a Transnordestina”, diz.

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ESTADO Pernambuco agora conta com um novo parceiro privado para o Ramal Suape, desinteressante para a TLSA - DIEGO NIGRO/ACERVO JC IMAGEM

“Não existe solução para o País sem solução para o Nordeste", completa Kaval, lembrando que diante da escassez das fontes hídricas, as regiões Sudeste e Centro-Oeste, por exemplo, usaram mais energia eólica, produzida principalmente no Nordeste.

Outras questões, como as que têm ligação com saúde, educação e desenvolvimento tecnológico, também importam ao Nordeste. É o que frisa o cientista político e historiador Alex Ribeiro. “A região não é diferente das outras e também precisa de atenção a essas temáticas”, pontua.

“É preciso, cada vez mais, desconstruir essa ideia de que o Nordeste é atrelado apenas à seca e às desigualdades sociais. Afinal, apesar de cada localidade ter sua especificidade, não pode ser remetida a algo pitoresco”, conclui.

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