Caso Itambé: Inquérito revela despreparo e abuso de PMs

Polícia Civil indiciou os dois PMs que participaram da ação que resultou na morte de Edvaldo Alves, em Itambé
Margarida Azevedo
Publicado em 03/06/2017 às 6:05
Polícia Civil indiciou os dois PMs que participaram da ação que resultou na morte de Edvaldo Alves, em Itambé Foto: Foto: Divulgação


A Polícia Civil concluiu que os dois policiais militares envolvidos na morte de Edvaldo da Silva Alves, 21 anos, atingido por uma bala de borracha no dia 17 de março, em Itambé, Zona da Mata pernambucana, não sabiam utilizar a arma e desconheciam a letalidade dela. O inquérito – baseado em seis perícias, depoimento de 12 testemunhas e dos médicos que atenderam o rapaz – indiciou o capitão Ramon Tadeu Silva Cazé, 43, e o soldado Ivaldo Batista de Souza Júnior, 32, por homicídio culposo, sem intenção de matar. O resultado da investigação criminal, remetido ontem ao Ministério Público Estadual, causou indignação nas redes sociais e aos movimentos de defesa dos direitos humanos. E mostrou o despreparo da PM, na avaliação da Polícia Civil.

“Nenhum dos dois policiais teve treinamento para uso de elastômero (bala de borracha). Não tinham noção técnica da letalidade da arma. O soldado disse, inclusive, que foi a primeira vez na vida que efetuou um disparo com bala de borracha”, afirmou o delegado de Goiana, Pablo de Carvalho, que presidiu o inquérito. O capitão Ramon tem 22 anos na Polícia Militar e o soldado Ivaldo, seis. Ambos estão afastados do policiamento das ruas e atuando em funções administrativas. São lotados na Companhia Independente de Goiana.

Além do homicídio culposo, o delegado decidiu indiciar o capitão por abuso de autoridade. Após levar o tiro que atingiu uma veia de um dos testículos, Edvaldo foi arrastado, sangrando, para a viatura da PM. Levou do oficial uma tapa no rosto. As cenas foram gravadas em vídeo e ajudaram na investigação criminal.

“O fato de ele ter batido na vítima quando ela estava sendo socorrida foi avaliado como abuso de autoridade”, explicou o chefe da Polícia Civil, Joselito Kehrle. Na gravação, o capitão aponta para Edvaldo e diz: “É esse que vai levar o primeiro tiro?”. Em seguida o soldado dispara a arma. A vítima passou 26 dias internada no Hospital Miguel Arraes, em Paulista, no Grande Recife, e morreu de infecção hospitalar grave generalizada no dia 11 de abril. Edvaldo participava de um protesto em Itambé, cobrando mais segurança no município.

O capitão e o soldado estão sendo investigados também pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) e por um inquérito militar, conduzido internamente pela Polícia Militar de Pernambuco. Se a corporação entender que eles são culpados, poderão ser suspensos ou expulsos.

AVALIAÇÃO

Caberá ao Ministério Púbico acatar ou não o indiciamento por homicídio culposo. O promotor de justiça João Elias da Silva Filho, responsável pelo caso, informou, por meio da assessoria de imprensa, que recebeu o inquérito ontem e ainda vai analisar o conteúdo. Prometeu se posicionar em até 15 dias. Ele poderá denunciar os dois PMs à Justiça pelos crimes indicados pela polícia, por outros ou arquivar o caso.

Numa outra investigação conduzida pelo MPPE, o promotor concluiu que não houve ameaça ou intimidação dos PMs envolvidos no caso contra um irmão de Edvaldo e o advogado da família da vítima, Ronaldo Jordão. João Elias decidiu pelo arquivamento do procedimento em relação às alegações de ameaças e intimidação.

Por telefone, o advogado da família de Edvaldo disse que estava ontem fora de Pernambuco participando de um congresso e que segunda-feira poderá solicitar a reconsideração do posicionamento da Polícia Civil. “Ainda teremos que esperar a decisão do promotor. Caso ele siga a mesma linha do delegado, vamos requerer a substituição dele no caso”, explicou Ronaldo Jordão. A reportagem não conseguiu falar com parentes do rapaz assassinado do Caso Itambé.

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