Violência

'Nada mudou', diz pai que perdeu a filha há três anos em assalto a ônibus

Suany Rodrigues foi atingida por um tiro na cabeça durante assalto a ônibus. O pai dela, Antônio Rodrigues, lamenta crescimento de casos no Grande Recife

Renata Monteiro
Renata Monteiro
Publicado em 19/09/2016 às 21:53
Foto: Rodrigo Lôbo/ Arquivo JC Imagem
Suany Rodrigues foi atingida por um tiro na cabeça durante assalto a ônibus. O pai dela, Antônio Rodrigues, lamenta crescimento de casos no Grande Recife - FOTO: Foto: Rodrigo Lôbo/ Arquivo JC Imagem
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Constantes registros de assaltos a ônibus têm deixado quem precisa usar transporte público no Grande Recife cada vez mais assustado ao sair de casa. De janeiro a agosto de 2016, a região teve 740 ocorrências do tipo, 189 casos a mais do que no mesmo período de 2015. Para quem passou por um assalto ou perdeu algum parente em um episódio violento dentro de um coletivo, a falta de segurança sentida atualmente pelos usuários tem um significado ainda maior.

Antônio Rodrigues da Silva, de 60 anos, perdeu a filha de 33 anos há pouco mais de três anos em um assalto à ônibus em Jaboatão dos Guararapes. No dia 20 de fevereiro de 2013, Suany Muniz Rodrigues saiu mais cedo do trabalho, no Estaleiro Atlântico Sul, para encontrar o marido e comemorar uma promoção no serviço. Ela pegou um ônibus da linha Barra de Jangada/ Curado IV na altura do Shopping Guararapes, mas não chegou ao destino.

"Naquele dia minha filha havia me mandado uma mensagem logo cedo informando que seria promovida. Ela estava muito feliz, trabalhando, fazendo um curso técnico. Quando subiu no ônibus os meliantes já estavam dentro dele. Nas imediações do Cemitério Memorial Guararapes eles anunciaram o assalto", explicou.

Suany, que já havia comentado com o pai que tinha muito medo de ser assaltada, teria travado quando percebeu o assalto. Os suspeitos a xingaram e mandaram que ela abaixasse a cabeça. Após o susto inicial, a mulher ainda chegou a entregar o celular da empresa aos ladrões, mas um dos criminosos acabou atirando na cabeça dela. "Eles levaram os pertences de todos os passageiros e atiraram na cabeça da minha filha. Ela ainda foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Lagoa Encantada, no Ibura, mas chegou no local quase morta. Não conseguimos salvá-la", lamentou Antônio.

Além do marido, Suany deixou uma filha que, na época, tinha três anos e seis meses. Atualmente a garota vive com o pai e a madrasta. Segundo Antônio, reviver a insegurança sentida na época em que a filha foi assassinada é como passar por tudo aquilo novamente. "Quando minha filha foi morta eu procurei a empresa do ônibus em que ela estava e um funcionário me disse informalmente que centenas de assaltos já haviam sido registrados naquela empresa só nos primeiros dois meses de 2013. Até hoje nada mudou. Retiraram os cobradores de algumas linhas achando que isso vai reduzir a violência, mas não vai. O que vai diminuir a violência é o Estado dar segurança aos cidadãos", cravou.

"Todos os dias eu lembro da minha filha. O que eu sinto é como um buraco, um vazio. Dia 26, por exemplo, é meu aniversário, e eu sei que vou sofrer demais porque aquela pessoa que me ligava para me parabenizar não está aqui para fazer isso. Minha neta, que agora tem oito anos, é a cara dela, tem muito do jeito dela, e faço o possível para não deixar que a lembrança da mãe se apague da sua memória", contou Antônio.

Em abril de 2014, os acusados de matar Suany foram condenados pela Justiça. Leandro Assis da Silva, 30, pegou 34 anos e três meses de reclusão e Lucas Joaby da Silva, 20, pegou 33 anos e nove meses. Um terceiro suspeito de envolvimento no crime, que teria emprestado a arma utilizada para matar a vítima, foi preso por outras acusações. Durante depoimento, os réus confessaram participação no latrocínio.

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