O terceiro Ulysses brasileiro

No ano em que expiram os direitos da obra, nova tradução do romance do irlandês James Joyce sai pela Companhia das Letras
Diogo Guedes
Publicado em 06/05/2012 às 6:27
No ano em que expiram os direitos da obra, nova tradução do romance do irlandês James Joyce sai pela Companhia das Letras Foto: Reprodução


Logo na primeira tentativa, o tradutor e doutor em Linguística paranaense Caetano Galindo descobriu que nunca iria conseguir simplesmente ler Ulysses. Mais do que uma narrativa, a obra se transformou na sua cabeça em um projeto, algo a ser estudado programaticamente. Justamente por isso, Caetano nunca apenas a leu: mergulhar no livro significou trabalhá-lo, questioná-lo, entendê-lo. Ele decidiu, então, transformar o texto em seu. A terceira versão em português do clássico moderno Ulysses (Companhia das Letras, 1.112 páginas, R$ 47), do irlandês James Joyce, foi traduzida por ele e chega no dia 10 de maio às livrarias, aproveitando que os direitos das obras do autor expiraram neste ano.

O livro é considerado por especialistas a grande realização do modernismo na literatura e é presença obrigatória em qualquer lista das maiores e melhores obras de todos os tempos. Com histórico de censura, foi acusado de ser obsceno e banido no Reino Unido e nos Estados Unidos até meados da década de 1930. No Brasil, o texto foi primeiro publicado 1966, pelas mãos de Antônio Houaiss – feito impressionante, tendo em conta a escassez de ensaios críticos sobre o tema em todo o mundo.

Com sua imensa erudição, Houaiss construiu um Ulisses (com i, em sua versão) muitas vezes apontado como hermético, permanecendo por muito tempo como a única tradução. Só em 2005, o País conheceu uma nova versão: a de Bernardina Pinheiro, que conta de forma mais acessível a trajetória de Leopold Bloom – equivalente irlandês e contemporâneo do personagem principal da Odisseia, de Homero – durante um dia em que ele circula por Dublin, na Irlanda.

É um livro complexo, claro: Joyce se usa de mistura de palavras de vários idiomas, faz referências literárias eruditas e cria paródias sofisticadas. Apesar disso, a imagem que se criou dele tem constantemente afastado o público da leitura do clássico. Para Caetano, não é preciso ter uma grande bagagem literária para de encarar a obra. È até recomendável começar assim, despretensiosamente, “ler com o que você tiver na mão, sem correr atrás de mais nada”. “O importante é o livro”, diz.

No projeto, Caetano teve o experiente tradutor e poeta Paulo Henriques Britto como supervisor. A cada decisão mais complexa, os dois travavam diálogo para chegar a uma forma final. O editor do livro, André Conti, conta que isso facilitou bastante seu trabalho. “As dificuldades ficaram mesmo para o pobre Caetano. Eu peguei já uma prova muito boa para editar, aquela versão que é o sonho de todo editor. Até porque Caetano não deu nenhum ‘chute’ na tradução”.

Dessas dificuldades, Caetano vem falando desde que defendeu sua tese de doutorado na USP sobre o assunto e desde quando a edição da Companhia das Letras foi anunciada. Há, no entanto, algum aspecto em que traduzir Ulysses é mais “fácil”? Para ele, sim: a merecida reputação de complexo faz com que críticos e leitores encarem as traduções com maior “tolerância”.

“Traduzir o Ulysses pode ser o melhor dos dois mundos”, argumenta. “Se na tradução de prosa literária se cobra muito mais ‘precisão’ do tradutor e na de poesia se lhe concede muito mais liberdade, porque se reconhece que as construções formais o obrigam a ser ‘livre’ e inventivo, no Ulysses há as duas coisas. E as duas vantagens. A variabilidade colorida e solta da prosa e o rigor formal da poesia, com a liberdade que ele acarreta ao tradutor”.

Com a nova edição, Conti e o Galindo buscaram valorizar mais o lado humorístico da obra de James Joyce. “Essa é uma tradução que investe nesse lado do humor de Ulysses, o que, claro, não quer dizer que as outras traduções não eram engraçadas. Mesmo sendo uma narrativa também comovente, seria impossível uma versão dela que não fosse engraçada. Mas o Caetano é também divertido, é bom em trocadilhos e tem um senso de humor que lembra o do Joyce”, analisa Conti.

O livro, segundo Conti, vai contar com uma apresentação escrita por Galindo, explicando os critérios da tradução, e uma introdução do crítico literário Declan Kiberd. “Não vai ter nenhuma nota de rodapé e nenhuma referência externa. O que queríamos é que os leitores tivessem um acesso direto ao texto. Além disso, não dá para decidir o grau de anotação de texto – qualquer critério mínimo geraria uma turbilhão de notas”, explica o editor. Segundo ele, a ideia é que as notas e comentários de Galindo virem uma espécie de um “como ler Ulysses” no futuro, um guia para a obra.

Compare trechos das três traduções de Ulisses:

Caetano Galindo:

"Mastigava destemperadamente, o senhor Bloom, as vísceras de aves e quadrúpedes. Gostava de sopa grossa de miúdos, moelas acastanhadas, um coraçãozinho recheado assado, fatias de fígado fritas com farinha de rosca, ovas de bacalhoa fritas. Acima de tudo gostava de rins de carneiro grelhados que lhe davam ao paladar um fino laivo de tênue perfume de urina.

Tinha rins na cabeça enquanto se movia delicadamente pela cozinha, ajustando as coisas do café da manhã dela na bandeja calombuda. Gélidos ar e luz estavam pela cozinha mas lá fora doce dia de verão por toda parte.

As brasas vermelhavam."

Bernardina Pinheiro:

"O Sr. Leopold Bloom comia com prazer os órgãos internos de aves e de outros animais. Ele gostava de uma sopa grossa de miúdos de aves, moela com nozes, um coração recheado assado, fatias de fígado fritas à milanesa, ovas de bacalhau tostadas. Mais do que tudo ele gostava de rins de carneiro grelhados que davam ao seu paladar um sabor refinado de urina ligeiramente perfumada.

Rins estavam em sua cabeça enquanto ele se movia mansamente pela cozinha, arrumando as coisas dela na bandeja corcovada. Havia na cozinha uma luz e uma ar gélidos mas lá fora se estendia em toda parte uma suave manhã de verão. Fazia com que ele se sentisse um tanto faminto.

Os carvões estavam avermelhando."

Antônio Houaiss:

"Leopold Bloom comia com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves. Apreciava sopa de miúdos de aves, moelas amendoadas, um coração assado recheado, fatias de fígado empanadas fritas, ovas de bacalhoa fritas. Mais do que tudo gostava de rins de carneiro grelhados que dava m ao seu palato um delicado sabor de tenuemente aromatizada urina.

Rins tinha em mente no que se movia suave pela cozinha, dispondo as coisas do desjejum dela sobre a bandeja encalotada. Luz e ar gélidos havia na cozinha mas fora da casa meiga manhã estival por toda parte. Fazia-o sentir-se um tico apetente.

Os carvões avermelhavam"

Leia a matéria completa no Caderno C, do Jornal do Commercio, de domingo (6/5)

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