FESTA DO MORRO

Do brega-funk ao samba: conheça as expressões culturais que fazem o Morro da Conceição

Das festas juninas ao Carnaval, a vida cultural no Morro efervesce em todas as épocas do ano.

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Bruno Vinicius

Publicado em 08/12/2021 às 6:00
Desfile da Escola de Samba Galeria do Ritmo - Foto: André Nery/JC Imagem

Todos os anos, uma multidão sobe o Morro da Conceição para celebrar a santa que lhe dá o nome no dia 8 de dezembro. Para além da religiosidade católica, o território é um ponto de encontro das culturas da cidade. Das festas juninas ao Carnaval, a vida cultural no Morro efervesce em todas as épocas do ano. Samba, maracatu, coco, quadrilhas, brega-funk e o próprio frevo são algumas das expressões encontradas em torno do Santuário de Nossa Senhora da Conceição.

Enquanto boa parte da produção cultural sempre ficou localizada ao Centro da Cidade, o território da Zona foi construindo seu próprio berço das artes, ao abrigar expressões como a escola de samba Galeria do Ritmo, da quadrilha Junina Tradição e do projeto Clube do Samba do Recife. Tradições que, talvez, sejam as mais conhecidas do local - mas que não resumem, apenas, tudo o que é produzido culturalmente lá.

>> Morro da Conceição tem muitas histórias dedicadas à cultura

O Mestre Pinha Brasil é um dos grandes exemplos desse caldeirão cultural. Nascido no Alto José Pinho, bairro quase vizinho ao morro, ele passou mais da metade da vida cercado do Santuário de Nossa Senhora da Conceição. "O Morro da Conceição, para mim, hoje é um estímulo onde eu pude desenvolver e criar movimentos culturais, como o coco, a ciranda, o frevo e o maracatu. Eles possibilitaram o resgate de crianças e jovens com a cultura, a música e a educação. Aqui é um morro vivo que se interliga a outros morros", conta o criador do Coco Virado. 

Apesar de ter nascido no morro vizinho, foi na Conceição que ele estabeleceu raízes. Com a religiosidade familiar, Mestre Pinha também é devoto da santa. "Eu me emociono, porque é uma tradição que vem de infância, que vem dos meus bisavós. Eu continuo passando para família e amigos e família. É tudo, é uma base espiritual e astral", conta o mestre, que deu uma pausa durante a pandemia. Ele explica que os ensaios do grupo têm acontecido uma vez por mês, e também pede mais união entre os realizadores culturais que fazem a Cidade. "Não podemos fazer um movimento cultural na rua, mas se tiver mais união a gente chega lá", reitera.

Quem também produz culturalmente no Morro é Ana Paula Guedes. Ela - que é comunicadora, musicista e produtora - fundou o bloco Obirin e Meu Morro dá Samba. "Sou ativista, negra, periférica e o samba teria que ter a nossa cara. Esse projeto ajuda muita gente, pois esse Samba é alimento na mesa de muita gente, não só do Morro e adjacências, mas também já foi pro Pina. É de terreiro, pois não podemos esquecer das nossas matrizes africanas", explica a articuladora cultural.

No Obirin, Ana Paula idealizou um bloco de samba-reggae só para mulheres, sendo o primeiro da Capital Pernambucana nesse ritmo. " É o primeiro de Recife voltado para mulheres cis e mulheres trans. E que também é o primeiro movimento de mulheres do Morro com música dança, onde usamos esse instrumento como valorização da auto estima e empoderamento das mulheres que participam e as que indiretamente também estão conosco. Temos rodas de conversas psicólogas e terapeutas que se propõem a estar nos ajudando nessa construção de liberdade feminina", enfatiza Ana Paula, levantando que muitas mulheres do coletivo também são lésbicas e candomblecistas.

O Samba do Morro

Em busca de valorizar a presença feminina no samba, a cantora Karynna Spinelli fundou há 12 anos o Clube do Samba. "Eu acho que o mais importante do Clube do Samba para os artistas é que ele é um palco aberto, é inclusivo.  Além disso, a gente conseguiu trazer de outros estados grandes mestres e grandes mestras da música do samba, especificamente, para cantar aqui na periferia perto do povo, como Fabiana Cosa, Mariene de Castro, seu Wilson das Neves, Moacir Luz e Nilze Carvalho", conta a sambista.

Parado por causa da pandemia, o Clube do Samba vai retornar no próximo ano. Porém, Karynna não parou. Hoje é vice-presidente da Galeria do Ritmo e trabalhou com algumas ações durante a crise sanitária. "A gente continuou fazendo ações de arrecadação de alimentos para os Moradores do Morro,  com algumas parcerias como Fundação Banco do Brasil e o Centro Sabiá", diz a cantora, prometendo vários projetos. Neste sábado, ela também participa com outras sambistas pernambucanas do 4º Encontro Nacional e Internacional de Mulheres na Roda de Samba.

"O clube faz um trabalho com muito foco no poder da mulher: a mulher que é cantora, mas é a mulher que produz também, é a mulher que capta recurso, que escreve os projetos nos editais, faz a produção e direção musical. Eu investi muito nesse processo nesses 13 anos. O Clube do Samba é lugar de fala, é lugar de aprendizado, é lugar de acolhimento. E é lugar de muita macumba. É um samba que a gente faz com os os sons de terreiro, com a cultura popular. É um casamento perfeito. Eu sempre me emociono quando eu falo do clube, porque aprendo e muito com ele", enfatiza Spinelli.

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