Dia da Consciência Negra: Mahmundi reverencia artistas pretos da música nacional no projeto 'Sorriso Rei'

Cantora, compositora e produtora carioca assumiu papel de diretora criativa para revisitar obras de Gilberto Gil e Jovelina Pérola Negra nas vozes de jovens talentos
Nathália Pereira
Publicado em 20/11/2020 às 12:00
Trabalho conduzido por Mahmundi junto a gravadora Universal Music conta também com dois videoclipes e um documentário, dirigido por Yasmin Thayná Foto: LUCAS NOGUEIRA/DIVULGAÇÃO


Em 1986, Gilberto Passos Gil Moreira já era Gilberto Gil. Com quase 30 anos de carreira, álbuns nascidos clássicos e o amargor da ida e volta do exílio político durante o período de chumbo da ditadura militar. Foi neste ano em que recebeu - e aceitou - o convite de Nelson Pereira dos Santos para compor a trilha sonora do longa Jubiabá, adaptação da obra de seu conterrâneo Jorge Amado.

Nessa mesma época, uma carioca artisticamente batizada como Jovelina Pérola Negra gravava seu terceiro LP, A Arte do Encontro, em parceria com Dona Ivone Lara.

A segunda metade da década de 1980 foi presenteada também com o nascimento de Marcela Vale, a Mahmundi, cantora, compositora e produtora musical, carioca como Jovelina, que assumiu mais um posto, o de diretora criativa, para o projeto Sorriso Rei, o qual assina junto a gravadora Universal Music.

O trabalho em celebração ao Dia da Consciência Negra festeja a vida e a arte de pessoas pretas da música brasileira, apresentando como os dois primeiros homenageados Gil e Jovelina Pérola Negra, através de excelentes releituras de músicas destes artistas, nas vozes de intérpretes de gerações mais recentes, que chegam hoje às plataformas de audição por streaming.

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Tempo Rei, faixa gravada por Gilberto Gil em 1984, no álbum Raça Humana, ganha nova versão nas vozes de Xande de Pilares, Léo Santana e Priscila Tossan. Jovelina, por sua vez, é reverenciada através de Sorriso Aberto (composição de Guaraci Sant'anna), a quem deu interpretação marcante no disco homônimo de 1988. Para 2020, Mumuzinho, Malía, Mc Zaac e Ruby assumem os vocais.

Em coletiva de imprensa remota, realizada na última terça-feira (17), Mahmundi e Ruby falaram sobre o processo de criação coletiva e os vários atravessamentos que Sorriso Rei trouxe para cada uma.

"Eu acho que o maior movimento político que a gente pode entender hoje é ter no casting das três maiores gravadoras do mundo essas pessoas trabalhando, tocando, tendo autonomia para fazer. Eu não caio nesses papos de 'Black Lives Matter', de tela preta, porque isso, para mim, tem que ser na prática. Política para mim é o corpo presente, habitando lugares", aponta Mahmundi.

"Aqui foi uma coisa mesmo de troca de energia, porque ninguém foi obrigado a fazer, foi tudo com muito respeito e dedicação", conta.

Para ela, o exercício de entender todos esses artistas foi semelhante ao de uma perfumaria, que contou com a observação cuidadosa das potencialidades específicas de cada um deles. "A ideia não era colocar a minha identidade. A preocupação é que essas músicas sejam ouvidas por quem já as conhece, só que em novas vozes".

Ao Jornal do Commercio, Ruby, jovem cantora mineira de voz melodiosa, comentou sobre ter tido referências musicais de certo modo limitadas, por ter crescido em um ambiente religioso rígido, cantando majoritariamente música gospel.

"Mas meu pai era apaixonado por música, me apresentava de Prince a Pink Floyd. A Jovelina, porém, foi uma descoberta recente para mim e tem sido muito bom, porque tenho tido e quero ter mais propriedade sobre a música do meu país", diz.

Já para Mahmundi, o contato posterior com o samba, por exemplo, teve viés positivo, com a segurança da artista já adulta, depois de deixar a casa dos pais.

"Passei a ter uma relação com a Mangueira, de ir na quadra, almoçar lá, um contato sem aquela coisa dos 'medalhões' intocáveis e distantes, comum na música daqui. Com a Portela também. Tenho descoberto eles, assim como o Gilberto Gil, no meu tempo. Desde quando a Beth Carvalho faleceu, a partir dessa perda grande, tenho feito isso de uma forma mais orgânica".

DOCUMENTÁRIO

Sorriso Rei, além destes dois primeiros singles, conta com dois videoclipes e um documentário, dirigido pela cineasta carioca Yasmin Thayná, vencedora do prêmio de Melhor Curta-metragem da Diáspora Africana da Academia Africana de Cinema em 2017.

O filme (assista abaixo) com pouco mais de 14 minutos é construído por entrevistas e detalhes dos bastidores da produção e gravação das músicas - transmutando bem para o vídeo a paixão de Mahmundi pelo trabalho como produtora. "Fazer o que estou fazendo hoje exatamente é o que eu queria fazer desde sempre", diz ela na cena inicial.

Para arrematar a data, Mahmundi contou que recebeu, de surpresa, um vídeo de Gilberto Gil tocando Tempo Rei, diretamente de onde tem passado o isolamento social. Ela tem trabalhado em cima de uma versão colaborativa com o áudio compartilhado pelo músico. A intenção é que Sorriso Rei seja só o ponto inicial de um projeto maior e além do 20 de novembro.

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