COLUNA MOBILIDADE

Um Dia Mundial Sem Carro diferente: devido à pandemia, paixão pelo automóvel aumentou no Brasil

Mais de 80% dos brasileiros ainda preferem o automóvel. Enquanto 44,7% usam táxi ou aplicativos

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 22/09/2021 às 7:00
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
O medo da proximidade com o outro interferiu ainda mais nos hábitos da população, que voltou correndo e feliz para o transporte individual - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Chegamos a mais um Dia Mundial Sem Carro, comemorado no dia 22 de setembro, com notícias nada boas para a sustentabilidade das cidades. Infelizmente. Se estimular a sociedade a se desapegar do automóvel já era uma luta árdua e permanente antes da pandemia, com a crise sanitária provocada pela covid-19 se tornou quase desumana. O medo da proximidade com o outro interferiu ainda mais nos hábitos da população, que voltou correndo e feliz para o transporte individual. Pesquisas comprovam essa migração.

Dia Mundial Sem Carro - Um dia para mudar hábitos

Uma das mais recentes mostra que, por medo de contágio, 82% dos brasileiros estão preferindo e optando por viagens de carro. O transporte público é visto com desconfiança e é escolha para quem, de fato, não tem opção. A conclusão é do Instituto de Pesquisa Route Automotive, sediado em São Paulo (HSR-Route Automotive), empresa especialista em pesquisas de mercado. O levantamento aponta que 82,4% dos entrevistados utilizam o carro como principal meio de locomoção. Já 44,7%, usam táxi ou aplicativos. O ônibus é utilizado apenas por 26,3% e apenas 27,4% dos entrevistados se deslocam a pé, apesar do avanço do home-office com a pandemia. Já o metrô tem uma preferência ainda menor: 18,2%.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
O transporte público é visto com desconfiança e é escolha para quem, de fato, não tem opção - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

A pesquisa foi realizada entre os dias 24 de março e 07 de abril nas nove principais regiões metropolitanas do País: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Fortaleza, Curitiba e Belém. E foram ouvidas 575 pessoas que possuem carros (52% homens e 48% mulheres) entre 18 e 45 anos. “Nosso intuito foi entender melhor o que nos aponta o futuro da mobilidade urbana no pós-pandemia. Ela ajuda a retratar e a entender a atualidade. E, no contexto atual, mostra que, quando possível, as pessoas procuram evitar as aglomerações dos transportes públicos. Não apenas pelo conforto, mas também por uma questão de saúde", resume o diretor da HSR-Route Automotive, Wladimir Molinari.

DESCONFIANÇA E EVIDÊNCIAS

É claro que precisamos considerar que a HSR-Route tem negócios com o setor automotivo e o estímulo ao transporte individual é algo positivo. E que a escolha dos entrevistados - pessoas que têm carro - também é determinante. Mas não há como ignorar o que aponta o levantamento. Até porque ele se confirma nas ruas das cidades - cada dia mais congestionadas com a retomada das atividades econômicas -, na perda de demanda do transporte público (chegou a 80% e vem se mantendo permanente na casa dos 20% a 30% em várias capitais), e no permanente uso do transporte por aplicativo - que apesar das crises, segue sendo utilizado pela população.

Melhora da pandemia e flexibilizações trazem trânsito de volta e com tudo às ruas do Grande Recife

Nosso intuito foi entender melhor o que nos aponta o futuro da mobilidade urbana no pós-pandemia. Ela ajuda a retratar e a entender a atualidade. E, no contexto atual, mostra que, quando possível, as pessoas procuram evitar as aglomerações dos transportes públicos. Não apenas pelo conforto, mas também por uma questão de saúde",
Wladimir Molinari, diretor da HSR-Route Automotive

Edson Lopes Jr/Route Automotive
Wladimir Molinari, diretor da HSR-Route Automotive - Edson Lopes Jr/Route Automotive

HAVERÁ REAÇÃO?

A pesquisa, no entanto, mostra que poderá haver alguma reação com o avanço da vacinação da população contra covid-19, mas nada que eleja o transporte público a protagonista e que coloque o automóvel em segundo plano. O transporte público deve recuperar espaço: 32,1% dos entrevistados dizem que pretendem priorizar o ônibus ao fim da pandemia, e 22,2% devem optar pelo metrô. Mas apenas isso.

Confira a série de reportagens Por um novo transitar

Não é mais acidente de trânsito. Agora, a definição é outra nas ruas, avenidas e estradas do Brasil

Ou seja, não há o que se comemorar neste Dia Mundial Sem Carro porque, mais do que nunca, será difícil convencer o cidadão que tem opção - é importante frisar - a substituir o transporte individual pelo coletivo ou o ativo (bicicleta e caminhada).

O ESTRAGO DOS AUTOMÓVEIS EM NÚMEROS 

31 mil pessoas devem morrer este ano no trânsito brasileiro, segundo projeção feita pelo ONSV

500 mil pessoas ficam mutilidades no trânsito, em média, todos os anos no Brasil

36 bilhões de reais é o custo anual dos feridos no trânsito para a saúde pública brasileira

AÇÕES NO DIA MUNDIAL SEM CARRO EM PERNAMBUCO

Nova ciclofaixa e Bike-PE de graça no Recife

O Dia Mundial Sem Carro será marcado no Recife com a implantação e requalificação de ciclofaixas em Santo Amaro, na área central, e a oferta de 500 vouchers para viagens de bicicleta no sistema de compartilhamento Bike-PE. A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) estará implantando a segunda etapa da Ciclofaixa Professor Josias de Albuquerque, além de uma requalificação do trecho da Rua Treze de Maio, que se tornará bidirecional. Será implantada, também, uma área de trânsito calmo com uso de urbanismo tático.

Em paralelo, a empresa Tembici, operadora do BikePE, irá disponibilizar 500 vouchers para retirada gratuita das bikes do projeto nesta quarta-feira (22/9). A promoção é válida apenas para novos usuários e tem validade até a sexta (24/9). Os novos usuários poderão utilizar o código PEDALAPE para adquirir os planos mensais.

Rodolfo Loepert/PCR
O Dia Mundial Sem Carro será marcado no Recife com a implantação e requalificação de ciclofaixas em Santo Amaro, na área central, e a oferta de 500 vouchers para viagens de bicicleta no sistema de compartilhamento Bike-PE - Rodolfo Loepert/PCR

Ciclistas dominam o Marco Zero

A Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) vai ocupar, a partir das 7h, o Marco Zero do Recife, no Bairro do Recife. O objetivo do ato é chamar atenção para a desigualdade entre os investimentos públicos em mobilidade urbana. No local será tirada uma foto aérea, em que os participantes estarão vestindo camisas e levantando cartazes representando essa disparidade.

O ato se justifica em dados oficiais: A última Pesquisa Origem-Destino da Prefeitura do Recife (2018) mostrou que, na divisão dos meios de transporte, mais de 85% da população utiliza os modos sustentáveis (o caminhar, a bicicleta e o transporte coletivo). No entanto, o investimento nas vias para os automóveis é cinco vezes maior em relação aos demais. “Se somos 85% dos deslocamentos, nada mais justo que tenhamos 85% desse investimento”, argumentam os ciclistas.

Ameciclo/Divulgação
Ato dos ciclistas do Recife no Dia Mundial Sem Carro - Ameciclo/Divulgação
Ameciclo/Divulgação
Ato dos ciclistas do Recife no Dia Mundial Sem Carro - Ameciclo/Divulgação


Conscientização no Plaza Shopping

O Plaza Shopping, localizado na Zona Norte do Recife, vai repassar dicas aos ciclistas que chegarem ao centro de compras pelos pisos L2 e L3 e usarem o bicicletário. Todos serão recebidos pelos arte-educadores da Trupe da CTTU. Na ação, será distribuída a cartilha “Bora de Bike, Recife?” com dicas de como pedalar com segurança, mapa da rede cicloviária da capital e as vantagens de optar por andar de bicicleta.

Disputa entre bicicleta e automóvel

O Detran-PE fará um desafio intermodal para mostrar qual o transporte é mais viável nos horários de pico: a bicicleta ou o automóvel? Um ciclista e um motorista sairão do Parque da Jaqueira, nas Graças, às 7h40, com destino ao Marco Zero, no Bairro do Recife.

Alerta em Abreu e Lima, no Grande Recife

Alunos e professores do Colégio Santa Maria, em Abreu e Lima, no Grande Recife, vão fechar a Semana Nacional de Trânsito, na sexta-feira (24/9), com manifestações por mais segurança viária na BR 101, que corta toda a cidade. O grito de alerta chama a atenção para os riscos de uma estrada que, desde 2018, aparece no segundo lugar do ranking nacional divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) das rodovias mais perigosas do País. Naquele ano, a Polícia Rodoviária Federal registrou na BR 101, em Abreu e Lima, 15 mortes e 142 sinistros de trânsito (não é mais acidente de trânsito. Entenda a razão). O movimento pede, ainda, a instalação de um semáforo ou passarela para garantir a travessia segura dos pedestres na altura do colégio.

Em 2020, foram registrados 2557 sinistros de trânsito nas rodovias que cortam Pernambuco, de acordo com o último levantamento da CNT. Desses, 2006 tiveram vítimas (feridos ou mortos). 317 vidas foram perdidas. Em todo o Estado, a rodovia com o maior número de registros com vítimas foi a BR 101, onde foram contabilizados 783 casos.

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